banner anteriorpróximo banner
imagem
  Busca
Nome:
E-mail:
voltar para bulletPágina InicialbulletArtigos
Imagem Icone PSB
A Bossa Nova e a descarioquização do Brasil
Partido Socialista Brasileiro - PSB
24/10/2008 - 09:39
A Bossa Nova estréia em um momento histórico peculiar da vida brasileira, o da transferência da capital do litoral para o cerrado do planalto central.

O Brasil vivia um clima eufórico de modernidade, estimulado pelo desenvolvimentismo dos anos JK. Além da construção de Brasília e do traço de Oscar Niemeyer que encantaram o mundo, o esporte nacional também elevava a auto-estima do brasileiro: Éder Jofre sagrava-se campeão mundial de boxe. Com vários títulos internacionais, Maria Ester Bueno foi o maior destaque brasileiro do tênis e o basquete masculino conquistou o bi-campeonato mundial. Ieda Vargas conquista o título de Miss Universo. A seleção de futebol traz para casa o bi-campeonato mundial.

Nesse contexto, surge a Bossa Nova. Gestada no samba-canção e, com a crescente suavização rítmica e a “introdução de harmonias mais sofisticadas’’ ao samba, foi definindo seu estilo musical próprio. No seu endereço, a zona sul carioca, mais precisamente o bairro de Copacabana, em torno de um único instrumento musical, o violão, jovens de classe média, entre eles João Gilberto, Nara Leão, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Ronald Bôscoli, se reuniam para trocar experiências musicais.

Ao contrário do cenário e dos sentimentos expressos pelo samba-canção –o ambiente noturno, fechado, esfumaçado e à meia-luz de neón de boate, guardiã de músicas carregadas de melancolia e de dor-de-cotovelo herdadas do pós-guerra-, a Bossa Nova se propunha mais libertária. Suas canções exprimiam sentimentos e aspirações mais saudáveis e promissoras, refletindo, inclusive, um bom gosto ambiental e ecológico, que se assentava na natureza iluminada pelo sol e embalada pelo mar, e habitada por entes bucólicos: lobo, sapo, rã, pato, marreco, abacate, flor, no balanço de “Bananeira”, “Das rosas”, “Gaiolas abertas”, “Chove chuva”, “Águas de março”...

A Bossa Nova passou a perpassar quase todos os aspectos da vida nacional a partir do modo de ser carioca. Qualquer placar de um a zero no futebol, era chamado placar bossa nova. Deputados jovens da União Democrática Nacional (UDN) eram chamados de “ala bossa nova”. Tinha até presidente bossa nova, JK, ironizado por Juca Chaves: simpático, risonho e original ... é ser um presidente bossa nova. Inspirado na mulata Vera Lúcia, que ganhara o título de Miss Brasil Internacional, João Roberto Kelly lançou a marchinha “Mulata bossa nova,” que caiu no hully gully e, na passarela, só dá ela. Kelly compôs também a maliciosa “Cabeleira do Zezé”: será que ele é bossa nova, será que ele é Maomé, parece que é transviado...

Ditando normas e costumes, a zona sul fazia do vestido tubinho, do cabelo coque e da mini-saia a coqueluche da moda feminina brasileira. O biquini, no Brasil, surgiu nas areias em frente do Copacabana Palace, e logo tornou-se parte das “histórias das praias cariocas, verdadeiras passarelas de lançamento da moda de praias nacional”. O oftalmologista e observador da cena potiguar, João Maria Monte, afirma ter visto, tempos atrás, no bairro popular do Alecrim, a seguinte oferta de prestação de serviço: “Ensinam-se a falar Carioca”. Evidente que o Rio ditava modas e costumes ao resto do país segundo padrões urbanos da zona sul.

Mas como nada é permanente, exceto a mudança, o estilo carioca foi perdendo a exclusividade de pauteiro da Bossa Nova. Bossa-novistas universitários ligados ao Centro de Cultura Popular (CPC) da UNE sentiram a necessidade de dar um caráter plural e de raízes nacionais à temática até então restrita a um gosto localizado. Não só a música, mas a cultura nacional como um todo passou a ser entendida como um processo íntegro. Entram em cena quesitos relativos a operários, mulheres, negros, suburbanos, afro-brasileiros, enfeixados em temas como nacionalismo, justiça social e a questão agrária. Portanto, verdadeira antítese da temática vigente.

Guarnieri e o Teatro de Arena, com música de Edu Lobo, estreiam uma peça que se tornou um marco de resistência cultural à ditadura: “Arena Conta Zumbi”. Carlos Lyra e Vinícius de Moraes lançam a música “O comedor de gilete”, denúncia da sina do retirante nordestino. Chico Buarque, em “Essa moça tá diferente”, observa a mulher vislumbrando horizontes mais reais e amplos, que não se sente mais atraída por concerto de flauta, ela quer ver o astronauta descer na televisão.

Glauber Rocha torna-se o cineasta brasileiro de maior prestígio internacional, quando “Deus e o Diabo na Terra do Sol” é premiado no festival de Porreta, Itália. Roberto Santos, lança “A hora e a vez de Augusto Matraga”, com música de Geraldo Vandré, até hoje considerada a melhor adaptação para a tela de uma obra de Guimarães Rosa. O “Show Opinião” consagra-se como o maior sucesso do teatro brasileiro, uma experiência inovadora, cria de um grupo de intelectuais e artistas que romperam com a cultura de elite e dedicaram-se a elevar a cultura popular. Seus criadores, Oduvaldo Viana Filho, Armando Costa e Paulo Pontes. Seu editor, Augusto Boal. No palco João do Vale e Zé Keti, com suas composições de caráter social, político e humano, interpretadas por Nara Leão.

Sem esquecer o programa “Fino da Bossa”, com Zimbo Trio, Elis Regina e Jair Rodrigues, um dos mais importantes musicais da TV brasileira, o Tropicalismo, e sua crítica cultural radical, os Secos e Molhados, polêmicos por sua atitude ousada e performática, os Mutantes, de postura debochada e irreverente, os Novos Baianos, com sua explosão musical alegre e transgressora e os Festivais.

Todos são desdobramentos que descortinam uma nova Aquarela Brasileira, uma verdadeira revolução cultural, política e estética, tendo a Bossa Nova como seu engenho essencial, sem prejuízo, para o Rio de Janeiro, que se manteve como importante polo produtor, aglutinador e difusor das culturas nacional e carioca, sem dúvida.

• Fernando Mousinho é sociólogo e assessor do PSB na Câmara

Fernando Mousinho
imagem
imagem
imagem
imagem logo PSB Copyright © 2007 Partido Socialista Brasileiro - PSB
SCLN 304, Bloco A, Sobreloja 01, Entrada 63
Brasília - DF - CEP 70736-510